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Mofo branco – Alerta para o feijoeiro irrigado

II Simpósio: Caminhos para Alta Produtividade de Soja

Autores

Jean dos Santos Silva
Engenheiro agrônomo, mestrando em Fitotecnia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
santos.jean96@yahoo.com.br
Inara Alves Martins
inaraalves2010@hotmail.com
Karina Mendes Bertolino
Giovani Belutti Voltolini
giovanibelutti77@hotmail.com
Engenheiros agrônomos e doutorandos em Fitotecnia – UFLA
Pedro Menicucci Netto
Engenheiro agrônomo e mestrando em Fitotecnia – UFLA
pedromenicucci2010@hotmail.com

Crédito Murilo Lobo

O Brasil se destaca como maior produtor mundial do grão, com projeção para safra 2018/19 de uma área total plantada de 3,044 milhões de hectares, com uma produção de 3,075 milhões de toneladas e produtividade média de 1.010 kg/ha.

Os principais Estados brasileiros produtores de feijão são Paraná, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e São Paulo, que juntos representam 49% da produção nacional.

O plantio do feijão no Brasil está distribuído, ao longo do ano, em três safras distintas, variando de acordo com a região. A primeira safra, ou ‘das águas’, é plantada entre os meses de outubro e dezembro, concentrada nos Estados do Paraná, Minas Gerais e São Paulo.

A segunda safra, ou ‘da seca’, é plantada entre os meses janeiro e abril, com concentração nos Estados do Mato Grosso, Minas Gerais e Ceará. A terceira safra, ou ‘de inverno’, é plantada entre os meses de abril a junho, sendo concentrada nos Estados de Minas Gerais, Goiás e Bahia.

Principais doenças

Entre os principais fatores que limitam a produção do feijoeiro, a alta suscetibilidade a doenças se destaca com maior importância, podendo ser causada por bactérias, fungos e vírus. As principais doenças causadas por vírus são o mosaico comum (Bean commom mosaic virus) e mosaico dourado (Bean golden mosaic virus), e por bactérias são crestamento bacteriano comum (Xanthomonas axonopodis pv. phaseoli) e murcha de curtobacterium (Curtobacterium flaccumfaciens pv. flaccumfaciens).

As principais doenças causadas por fungos de solo são murcha de fusarium (Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli), podridão cinzenta do caule (Macrophomina phaseolina), podridão do colo (Sclerotium rolfsii), podridão radicular de rhizoctonia (Rhizoctonia solani), podridão radicular seca (Fusarium solani f. sp.solani) e mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum), e as principais doenças causadas por fungos na parte aérea do feijoeiro são antracnose (Colletotrichum lindemuthianum), ferrugem (Uromyces appendiculatus), mancha angular (Pseudocercospora griseola) e oídio (Erysiphe polygoni).

Para que as medidas de controle sejam adotadas, é fundamental o conhecimento das doenças, dos danos que causam e da época e condições favoráveis à sua ocorrência.

Danos ao feijoeiro irrigado

Em áreas de feijão irrigado com histórico de mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum) observa-se um aumento na severidade da doença quando comparada com o cultivo em sequeiro, visto que a alta umidade é um fator climático favorável para o seu desenvolvimento.

Nota-se, ainda, que a incidência do patógeno é mais severa em áreas irrigadas com o cultivo no inverno, onde as condições de umidade proporcionadas pela irrigação, aliada à temperatura amena da estação do ano, proporcionam um microclima ideal para o patógeno. 

Em regiões produtoras de feijão irrigado é muito importante evitar o excesso de água no solo, especialmente a partir do período de floração até o período de formação de vagens do feijoeiro, exigindo um monitoramento criterioso durante estes estádios.

O manejo da água da irrigação no controle do mofo branco no feijoeiro irrigado pode ser feito aumentando o intervalo entre as irrigações, que ajudam a reduzir a umidade do solo e das plantas e com isso diminui as condições ideais para o desenvolvimento do patógeno, a realização de manutenção preventiva dos equipamentos de irrigação para aplicar lâmina de água uniforme, prevenindo o maior acúmulo de água em locais específicos, o uso de equipamentos como tensiômetros para monitorar a necessidade de água da cultura, indicando a necessidade de irrigação e o mapeamento da área para evitar a áreas compactadas, que favorece a retenção de água e dificulta a infiltração no solo.

Ciclo da doença

O fungo S. sclerotiorum, na ausência de plantas hospedeiras, consegue sobreviver no solo por meio de estruturas denominadas escleródios por um período de cinco até 10 anos. O mofo-branco é considerado uma doença monocíclica, ou seja, possui apenas um ciclo primário de infecção, e uma vez que a planta está contaminada, a doença não é contagiosa.

O primeiro tecido a ser infectado pelos ascósporos são pétalas florais, que são órgãos de fácil acesso para o fungo adquirir energia e se desenvolver.

O fungo S. sclerotiorum pode se hospedar em mais de 200 gêneros de plantas. Estima-se que mais de 408 espécies vegetais sejam suscetíveis a este patógeno, compreendendo desde culturas de alto potencial econômico para o agronegócio, como algodão, feijão, girassol, soja, tomate e batata, até plantas daninhas.

Prejuízos

As perdas anuais causadas por S. sclerotiorum no Brasil chegam a 50% na cultura do feijoeiro, podendo atingir níveis superiores quando exposto a períodos chuvosos com temperaturas amenas.

O fungo ataca especialmente a haste principal, hastes laterais e as vagens. No caso do ataque à haste principal, a morte da planta pode ocorrer rapidamente caso não se faça um manejo contra o patógeno, e desta forma acarretar em elevadas perdas em produtividade.

Sintomas

Inicialmente, os sintomas caracterizam-se pelo crescimento de um micélio branco, com lesões inicialmente encharcadas que se espalham rapidamente para a haste, ramos e folhas e que, com o passar do tempo, adquirem coloração escura. Em poucos dias, parte do micélio transforma-se em uma massa negra e rígida, chamada escleródio.

Os primeiros sinais da presença de mofo-branco nas lavouras de feijão ocorrem em reboleiras, onde pode ser observada a murcha da planta, resultante do apodrecimento do caule. Os sintomas de infecção progridem então das flores, local onde os ascósporos penetram, para folhas, caules, ramos e vagens, onde ocorre a formação de um micélio cotonoso, de coloração branca, com presença de escleródios pretos, os quais possuem formas e tamanhos irregulares.

Caules e ramos, quando infectados, ficam branqueados e secos, provocando a morte da planta.

Condições propícias e estratégias de manejo

Conhecida como a doença mais destrutiva para a cultura do feijão irrigado cultivado no outono-inverno, o mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) também tem ocorrido em áreas cultivadas em sequeiro com altitudes acima de 800 m e em épocas de constante precipitação com baixas temperaturas.

Sendo assim, a frequência das irrigações associada a temperaturas amenas, baixa insolação, alta população de plantas e utilização de cultivares de crescimento excessivo são fatores que causam o aparecimento do fungo.

Outras maneiras de prevenir a entrada do patógeno na área é a limpeza dos implementos agrícolas antes da utilização e eliminação de plantas com sintomas da doença e antes da formação dos escleródios do patógeno.

Uma vez presente na área, existem estratégias para o controle da doença, dentre as quais podemos citar a adoção do plantio direto, em que operações de gradagem e aração (tratos culturais eficientes na disseminação do patógeno) são eliminadas.

Também é eficiente a adoção da rotação de culturas com a utilização de gramíneas como trigo, milho doce, braquiária ou aveia, tendo em vista que na ausência de plantas hospedeiras ocorrerá a redução do inóculo do patógeno.

Se o produtor optar pela não utilização de fungicidas no controle da doença, recomenda-se utilizar cultivares de feijão mais eretos e precoces, com maior espaçamento entre fileiras e menor número de plantas por fileira. Evitar altas doses de N, e assim, o crescimento exagerado das plantas e possível acamamento.

Técnicas

Para que o mofo branco não atinja sua lavoura e cause prejuízos, é necessário usar um conjunto de diferentes técnicas, conhecido como manejo integrado de doenças. Para que o manejo seja efetivo, é necessário que seja planejado desde a implantação da lavoura até a pós-colheita, de modo que as medidas dificultarão o desenvolvimento do patógeno na lavoura.

Quando a área possui histórico de infestação com mofo branco, é indispensável o uso de rotação de culturas, de modo que soja e feijão não sejam plantados na sequência, pelo fato de ambas culturas serem suscetíveis à doença. Deve-se alternar o cultivo com gramíneas (milho, sorgo, etc.) que não são hospedeiras, de modo a quebrar o ciclo de vida do patógeno.

O uso de sementes de qualidade e de boa procedência é indispensável para o manejo dessa doença, pois a disseminação dos patógenos pode ser feita por meio dos escleródios. Essas estruturas podem vir no lote de semente e infestar sua área, por isso, recomenda-se fazer teste de sanidade de semente antes da implantação. Antes do plantio, o tratamento de semente com fungicidas de contato e sistêmicos registrados para a cultura do feijão também é uma forma de evitar a entrada de patógenos na lavoura.

Utilizar densidades de plantio que não sejam adensadas a ponto de não criar um ambiente favorável à doença é uma alternativa viável. Plantios que seguem a direção de movimento do sol também são favorecidos, pois reduzem a criação de ambientes sombreados, que podem favorecer o fungo.

Como a incidência de mofo branco na safra outono-inverno é mais severa, o uso de fungicidas é uma importante ferramenta para garantir a sanidade das plantas. Desta forma, principalmente em áreas que têm histórico de aparecimento da doença, é necessário realizar a primeira aplicação de fungicida logo no início dos estádios produtivos, quando aparecer a primeira flor. 

Biológicos

Sobretudo, há possibilidade de aliar ao controle químico o controle biológico, sendo os produtos à base de Trichoderma asperellum muito eficientes. O Trichoderma asperellum é um fungo antagônico que atua combatendo o fungo Sclerotinia sclerotiorum. Sua aplicação deve ser feita em estádio V4, preferencialmente em dias de temperatura amena, que favorece a eficiência do produto.

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