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Cupins subterrâneos – E agora?

Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras

Autor

Diego Tolentino de Lima
Engenheiro agrônomo e doutor em Fitotecnia
diegotolentino10@hotmail.com
Crédito Richard Ian Samuels

Os microrganismos são considerados os principais responsáveis pelo processo de mineralização dos nutrientes. Entretanto, a fauna do solo exerce um importante papel de regulação das populações microbianas.

A predação seletiva de fungos e bactérias, feita especialmente pela microfauna; a estimulação, digestão e disseminação de microrganismos ingeridos pela macrofauna e a fragmentação dos detritos realizada pelas meso e macrofauna interferem na decomposição da matéria orgânica e alteram a disponibilidade de nutrientes para as plantas, e neste contexto estão inseridos os cupins.

Famílias

No Brasil ocorrem quatro famílias de cupins, Kalotermitidae, Rhinotermitidae, Termitidae e Serritermitidae. Dentre estas, a Termitidae é a principal família, que constrói diferentes tipos de ninhos e possui hábitos alimentares variados, como, por exemplo, madeira, folhas, raízes, húmus, etc.

Essa família é bastante diversificada e compreende cerca de 85% das espécies de cupins conhecidas do Brasil. Os principais gêneros são Cornitermes, Nasutitermes, Syntermes e Anoplotermes. Os Rhinotermitidae constroem ninhos subterrâneos, e os principais gêneros de importância econômica são Heterotermes e Coptotermes.

No Cerrado, em especial, os Termitidae constituem um grupo funcional dominante e estão relacionados com os processos biológicos do solo, como fluxo de energia, ciclagem de nutrientes e formação do solo. Esse processo de modificação dos solos realizado pelos cupins, principalmente os subterrâneos, deve-se à atividade de forrageamento na busca por alimento, cujo tamanho da área varia de acordo com a espécie.

Importância econômica

Quando estão presentes em alta população, os cupins podem prejudicar diversos tipos de lavouras, atacando as sementes e a parte subterrânea das plantas. Frequentemente causam prejuízos em canaviais e áreas de pastagens.

Os danos causados por cupins à maioria das plantas são ocasionados por espécies subterrâneas, que constroem uma rede difusa de galerias e câmaras e que consomem o sistema radicular, matando a planta ou diminuindo o seu desenvolvimento por meio da translocação de água e nutrientes. O ataque ao sistema radicular também pode levar ao aumento da suscetibilidade a ataque de patógenos

Ataque severo

Plantios florestais, como os eucaliptos, podem ser afetados desde as mudas plantadas no campo até árvores adultas. Os cupins que atacam mudas, desde o plantio até a idade de um ano, conhecidos como cupins das mudas, cupins das raízes ou cupins do colo, são considerados uma praga de solo muito destrutiva que ataca o eucalipto, danificando a árvore, impedindo seu crescimento e desenvolvimento inicial, destruindo o sistema radicular ou anelando a planta na região do colo.

Também atacam árvores formadas a partir de quatro anos de idade, destruindo o interior (cerne) da planta.

Prejuízos por cupins subterrâneos

Heterotermes tenuis e Heterotermes longiceps vivem em ninhos subterrâneos e difusos. São operários pequenos, esbranquiçados e de aspecto vermiforme. Provocam danos às raízes, colo e caule, causando perda do poder de estabelecimento e prejudicando o desenvolvimento das plantas. Também atacam o cerne da planta, provocando perda de material lenhoso (também pode ser chamado de cupim do cerne).

Syntermes molestus, Syntermes obtusus e Syntermes insidians vivem em ninhos subterrâneos com pequenas câmaras semelhantes às das formigas “lava-pés”. Há comunicação entre as câmaras, e entre estas e o exterior, por meio de canais estreitos e tortuosos, que se abrem na superfície do solo como “olheiros”, com diâmetro de 5 a 8 cm. Sua atividade é, principalmente, noturna.

Realizam forrageamento das folhas e roletamento do caule na altura do coleto, prejudicando o seu crescimento ou causando a morte de mudas recém-transplantadas no campo.

Coptoterme testaceus vive em ninhos subterrâneos, geralmente com alguma conexão com a madeira. Atacam as árvores vivas, instalando suas colônias no interior do cerne da planta cultivada. Provocam perda direta do material lenhoso. Além disso, as plantas perdem sua resistência e se quebram quando ocorrem ventos fortes.

Cornitermes cumulans e Cornitermes bequaerti vivem nos ninhos em montículos com formato variado, e com 50 a 100 cm de altura. É mais importante na fase inicial da cultura, quando pode reduzir o estande. Quando a cultura já está estabelecida, o cupim-de-montículo causa poucos danos às plantas.

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Perdas econômicas

Os gêneros Cornitermes e Syntermes, também chamados de cupins das mudas, vêm recebendo atenção especial, pelos grandes prejuízos no início da formação da floresta. As perdas são muito expressivas, por exemplo, para produtividade de uma floresta de eucalipto de 40 m3 ha-1 ano-1, ou seja, de 240 m3 ha-1 na idade de corte (seis anos). Supondo dano médio de 20% de mortalidade por cupins, aconteceria o seguinte:

Œ Perda de 48 m3 ha-1 ou 267 árvores ha-1 (em um estande de 1.333 mudas ha-1 ou espaçamento 3 x 2,5 m); e,

 Os prejuízos podem chegar a R$ 1.920,00 ha-1 no final do ciclo de produção (1 m3 = R$ 40,00).

Sintomas

Quando se vê uma muda murcha no campo, provavelmente ela sofreu ataque por cupins no sistema radicular. O que pode contribuir para a confirmação desse sintoma ser causado por cupins é a distribuição das plantas murchas em reboleiras no plantio. Outra característica importante desse sintoma é que quando o dano é causado por inseto as folhas não caem, porém, quando o dano é por estresse hídrico, as folhas caem.

O cupim está presente no solo o ano inteiro, porém, em épocas secas as plantas morrem mais, pois no período chuvoso as plantas emitem raízes secundárias quando atacadas por cupins, porque há umidade no local.

Existe o dano (sintoma) secundário de um ataque, quando o cupim corta a raiz, mas ainda fica um pouco de raiz, a árvore murcha, e no período chuvoso a árvore cresce, porém, com dois anos de idade a árvore cai devido à sua raiz ser superficial.

Medidas preventivas

Uma das medidas mais simples e eficientes é fazer a correção da acidez do solo pela calagem, de acordo com a necessidade da cultura. Para isto é necessário fazer a análise química do solo e consultar um profissional.

Esta correção de acidez traz benefícios em duas frentes. Primeiro, solos com acidez corrigida se tornam menos propícios ao desenvolvimento dos cupins; segundo, por causa da correção as árvores têm mais acesso aos nutrientes do solo, se desenvolvem melhor, se tornam mais sadias e resistentes, sendo menos atacadas pelos cupins.

Tradicionalmente, o eucalipto é cultivado em rotações curtas, de cinco a oito anos e, por isso, a correção do solo tem sido feita apenas em pré-plantio. Com o advento de novos materiais genéticos e a possibilidade de se obter madeira para serraria e outros produtos em ciclos de 14 a 21 anos, a avaliação periódica da acidez do solo e da necessidade de nova correção deve ser feita em intervalos de cinco anos. Esta medida deve ser suficiente para que as plantas mantenham bom ritmo de crescimento e permaneçam saudáveis.

Prevenção

Apesar da calagem praticamente resolver o problema de cupins, é importante fazer levantamento preventivo de ocorrência dos insetos, evitando-se o estabelecimento da floresta em regiões onde exista alta densidade de cupins subterrâneos.

Além disto, o combate dos cupins de montículo deve ser feito de 30 a 60 dias antes do preparo do solo (perfurar o montículo com uma lança de ferro e aplicar o inseticida com auxílio de uma mangueira acoplada a um funil).

Recomenda-se, também, não fazer aração nem arrancar os cupinzeiros antes de matá-los, pois irá multiplicar os ninhos, devido à possibilidade de haver reprodução da colônia por fragmentação, quando são formados reis e rainhas nas partes do ninho que ficaram sem estes.

Fazer o plantio em época chuvosa e utilizar adubação adequada e equilibrada para acelerar o desenvolvimento das plantas e escapar da fase de danos por cupins. Estudos mostram que a adubação adequada das plantas propicia maior resistência ao ataque de cupins. O plantio em época chuvosa acelera o desenvolvimento das plantas e estas escapam da fase de danos por cupins, que geralmente ocorre até seis meses após o plantio.

Monitoramento dos cupins subterrâneos

Um dos erros mais frequentes no combate aos cupins é a falta de monitoramento. Foi desenvolvido o método de amostragem de cupins utilizando-se iscas de papelão corrugado, conforme mostrado por Melo e Silva (2008). A isca em forma de rolos de papelão corrugado de 20 cm de comprimento e 8 cm de diâmetro são inseridos em buracos de 20 cm feitos no solo com a ajuda de um trado, ficando livre a extremidade superior.

Recomenda-se a amostragem pré-plantio, dividindo toda a área em parcelas de 50 x 50 m (2.500 m2). No centro de cada parcela é enterrada uma isca, pelo menos 30 dias antes do plantio. A avaliação é feita pouco antes do plantio, contando-se os ninhos do cupim subterrâneo Syntermes spp. (montículos de terra solta) em cada parcela e o número de cupins das iscas.

As parcelas que tiverem densidade maior que um ninho de Syntermes ou mais de 10 cupins por isca devem receber nota 1 e as demais recebem nota 0. Com isso, obtém-se um mapa de infestação de cupinzeiros do talhão. As parcelas que receberam nota 1 devem receber mudas tratadas previamente com calda inseticida. As demais recebem mudas não tratadas.

A amostragem pós-plantio é feita durante as operações de ronda pós-plantio, com o lançamento de transectos (linhas imaginárias) ao acaso, correspondentes às linhas de plantio. Devem ser selecionadas 3% das linhas de plantio, com no mínimo duas linhas por talhão. Em cada linha, conta-se o número total de mudas e o número de mudas atacadas, anotando-se a informação na ficha de amostragem e calculando-se a percentagem de mudas atacadas. O nível de controle é de 2 a 5% de mudas atacadas (esse valor é variável em função do valor da produção e do custo de controle do inseto).

Controle químico

A utilização de inseticidas, como fipronil e imidacloprido, é recomendada tanto de forma preventiva nas mudas quanto de forma curativa no estabelecimento das plantas. A imersão das mudas deve ser realizada antes do plantio em uma única aplicação. Preparar uma calda inseticida, proceder à imersão das bandejas com as mudas durante um período de 30 segundos, em seguida retirá-las e deixar escorrer o excesso de calda por um período de dois minutos. Aguardar a secagem das bandejas antes de efetuar o plantio das mudas.

A pulverização das mudas (rega das mudas após o plantio) deve ser logo após o plantio, dirigindo o jato para a região do solo e caule das plantas. Fazer uma leve incorporação após a aplicação da calda inseticida e repetir a aplicação, dependendo da reinfestação da praga, conforme indicado pelo monitoramento dos insetos.

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Controle biológico

A utilização de fungos entomopatogênicos no controle de cupins tem se mostrado altamente promissora. A estratégia utilizada é aplicar grande quantidade de fungos sobre os insetos, por meio de polvilhadeira adaptada com uma câmara na mangueira de descarga para melhorar a distribuição do fungo dentro do ninho, ou pela impregnação em iscas de material celulósico.

Essas iscas ou armadilhas atrativas são impregnadas com conídios de entomopatógenos ou a associação destes com inseticidas para controlar os cupins subterrâneos. Essa técnica consiste na ação lenta do material impregnado sobre a população de cupim quando eles se alimentam das iscas.

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