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Adjuvantes – Tecnologia de aplicação de agrotóxicos na citricultura

Congresso Brasileiro do Algodão

Autores

Hamilton Humberto Ramos
Viviane Corrêa Aguiar
Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico

Crédito Fussae Shimada

Adjuvante, por definição, é “qualquer substância ou composto sem propriedades fitossanitárias, exceto a água, que é acrescido numa preparação de agrotóxico para facilitar a aplicação, aumentar a eficácia ou diminuir riscos”.

Dessa forma, se ele “não possui propriedades fitossanitárias” e se é desenvolvido para ser “acrescido numa preparação de agrotóxico”, por si só não exerce nenhum controle e, portanto, não é um agrotóxico. Por outro lado, para “facilitar a aplicação, aumentar a eficácia ou diminuir riscos” ele interfere nas características da calda (mistura do agrotóxico com a água), podendo alterar aspectos importantes da pulverização.

Esta interferência pode ser positiva ou negativa no processo de pulverização, na eficácia do produto e também na segurança do trabalhador, do ambiente e do alimento. Daí a importância de se conhecer, analisar e classificar os adjuvantes por suas características funcionais.

Por onde começar

Para a correta identificação do adjuvante, o primeiro passo é analisar a situação e entender o que se espera que ele faça, ou seja, qual funcionalidade deve ser buscada. Feito isso, algumas opções de adjuvantes devem ser analisadas para comparar não apenas os efeitos positivos, mas também os negativos, que poderão trazer problemas ao tratamento fitossanitário, com a finalidade de mitigá-los ou mesmo optar por outro produto, caso isso não seja possível.

Portanto, para buscar a correta funcionalidade e a forma de uso do adjuvante, além de informações do fabricante do produto é importante entender sua interferência no processo de pulverização. Algumas funcionalidades podem ser usadas como exemplo deste processo.

Não confunda

O efeito tensoativo dos adjuvantes tem sido erroneamente confundido com o efeito espalhante, mas os dois são independentes em uma pulverização. A tensão superficial é resultado das ligações de hidrogênio, que são forças intermoleculares causadas pela atração do hidrogênio de uma molécula de água (H+) com o oxigênio de moléculas vizinhas (O).

No interior da gota, uma molécula de água está cercada por outras, o que faz com que a atração ocorra em todas as direções mas, na superfície, a atração ocorre apenas na parte de baixo, fazendo com que se forme na parte externa uma camada com efeito semelhante a uma ‘cama elástica’.

Quanto maior a tensão superficial, maior a dificuldade de deformação desta camada. Assim, uma gota com alta tensão superficial, ao ser arremessada contra um alvo, principalmente com alta velocidade, como no caso da utilização de turbopulverizadores, terá maior tendência a ricochetear do que ao aderir no alvo.

A quebra da tensão superficial, por meio de um tensoativo, faz com que a gota tenha maior capacidade de deformação, absorvendo a energia do impacto e reduzindo o ricocheteio. A grosso modo, é como uma bola de futebol sendo largada de certa altura no chão. Quanto mais cheia a bola (maior tensão), maior a capacidade da bola ricochetear. Ao murchar a bola (menor tensão), o ricocheteio diminui, pois ela se deforma no impacto e para no solo.

Efeito espalhante

Já o efeito espalhante é a capacidade de uma gota cobrir sobre o alvo uma área maior que a original após ter impactado. Assim, o espalhamento pode ser traduzido como a área molhada pela gota após seu impacto no alvo.

A elevação do espalhamento pode ser um excelente recurso como ferramenta na redução do volume de água utilizado na pulverização, como o que vem ocorrendo na citricultura, sem perda da eficácia e com redução significativa do custo, por possibilitar um menor volume de calda tenha a mesma cobertura do alvo.

No entanto, alguns adjuvantes chegam a aumentar a área molhada por uma mesma gota em mais de 30 vezes. Nesta situação, dependendo do volume de calda, gotas que inicialmente não coalesceriam passam a coalescer sobre o alvo, elevando o escorrimento, reduzindo a quantidade de produto na planta e, consequentemente, a eficácia do tratamento fitossanitário.

Para estes adjuvantes, normalmente classificados como “super espalhantes”, os volumes de aplicação devem necessariamente ser reduzidos em função da cobertura necessária do alvo. Ainda, o efeito espalhante é uma interação do adjuvante com características do alvo, como tipo e quantidade de cera. Por isso, o espalhamento de um mesmo produto pode variar para estruturas diferentes, como folhas, flores e frutos.

Efeito umectante

O efeito umectante ou redutor da evaporação da água pode ser pensado de duas formas: antes do impacto na folha ou sobre a folha. Sobre a folha o efeito umectante não pode ser avaliado individualmente, pois sofre a interferência do efeito espalhante.

Em dois produtos com exatamente o mesmo efeito umectante, aquele que apresentar maior área de espalhamento terá maior contato direto com o ambiente, evaporando mais rapidamente. Um adjuvante com boa característica umectante reduz, por exemplo, a taxa de cristalização do produto químico sobre o alvo, podendo elevar sua eficácia.

Por outro lado, reduzir a evaporação das gotas no caminho entre o pulverizador e o alvo eleva a taxa de recuperação do produto, ou seja, a quantidade de produto, atingindo efetivamente o alvo. Assim, utilizar um bom umectante pode representar importante fator, tanto econômico, uma vez que pode elevar o período de uso dos pulverizadores em função de condições climáticas, quanto de segurança e eficácia, uma vez que as gotas que evaporariam antes de atingir o alvo, resultando em possibilidade de contaminação do produtor e do ambiente.

No entanto, um efeito inverso a esse será observado caso o adjuvante, mesmo possuindo outras funcionalidades positivas, eleve a velocidade de evaporação da água. Neste caso, medidas de mitigação do risco de evaporação, como maior atenção às condições climáticas ou mesmo a opção por outro adjuvante, devem ser observadas.

Cabe ainda uma consideração importante: os adjuvantes são sempre ‘redutores de’ e nunca ‘anti’, pois esta é uma forma errônea de comunicar ou transmitir a funcionalidade. Um produto anti evaporante seria aquele que eliminasse a evaporação, ou seja, que faz com que ela deixe de acontecer, o que não existe, enquanto que o redutor de evaporação apenas a traz para níveis mais baixos, apesar de continuar existindo.

Considerações

Várias outras funcionalidades tão importantes quanto as citadas devem ser consideradas, no entanto, estas já exemplificam claramente como o conhecimento das características funcionais de um adjuvante é importante não só para elevar a eficácia e a economia do tratamento fitossanitário, como também para reduzir prejuízos por meio da limitação do seu uso, da alteração da forma de regulagem e/ou das condições de uso do pulverizador.

Por esta razão é que o Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico (CEA/IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, há mais de 20 anos se dedica a desenvolver métodos para avaliar individualmente as funcionalidades dos adjuvantes buscando uma recomendação mais técnica destes produtos, que enfatize seu lado positivo mas, ao mesmo tempo, tome os devidos cuidados com o lado negativo, quando necessário. Caso isso não seja feito, os prejuízos à citricultura, ao citricultor, ao trabalhador e ao ambiente poderão ser significativos.

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