Nova espécie de árvore é descoberta na Serra da Mantiqueira

A Ocoteamantiqueirae foi encontrada por pesquisadores do Instituto Florestal em uma região de difícil acesso de Pindamonhangaba (SP)

 

Fotos Instituto Florestal

Fotos Instituto Florestal

Pesquisadores do Instituto Florestal (IF) descobriram uma nova espécie de árvore na Serra da Mantiqueira. A Ocoteamantiqueirae faz parte da família das Lauraceae, conhecidas popularmente como canelas, e foi encontrada em uma área de difícil acesso, no município de Pindamonhangaba (SP).

Mas como se dá o processo da descoberta de uma nova espécie botânica? Os pesquisadores científicos do IF, Frederico Arzolla, João Batista Baitello e Francisco Vilela contam como foi esse processo.

O processo da descoberta

Em 2005, o pesquisador Frederico Arzolla estava procurando uma área para realizar sua pesquisa de doutorado. Tendo trilhado por vários pontos da Serra da Mantiqueira, soube pelo seu colega pesquisador do IF, Alexsander Antunes, da Fazenda de São Sebastião do Ribeirão Grande no município de Pindamonhangaba, pertencente ao Grupo Votorantim (Fibria Celulose S.A).

“Eu queria estudar as florestas alto-montanas. Conversei com o pessoal da empresa e escalaram o funcionário Donizete Brás para me acompanhar. A partir dos 900 metros de altitude, começamos uma subida íngreme pela floresta. Não havia trilhas marcadas. Fui acompanhando a altitude pelo GPS. Quando alcançamos a faixa dos 1.500 metros, a floresta começou a mudar: comecei a observar árvores que nunca tinha visto. Eram indivíduos imensos, de grande porte da espécie Ocoteacurucutuensis. A maior tinha três metros de diâmetro. Só que não eram muito altas”, narra Arzolla.

Ramo com flores

O pesquisador explica que as árvores dali são vulneráveis à constante incidência de ventos fortes, não ficando muito altas, pois elas vão quebrando. Apesar das bases dos troncos alcançarem mais de um metro de diâmetro, os caules são múltiplos e finos e a copa é falhada.

“Após cinco horas de caminhada, alcançamos uma crista de declividades mais suaves. Finalmente tínhamos chegado à floresta alto-montana. Observamos as espécies e fizemos a coleta da até então desconhecida Ocoteamantiqueirae, que estava com frutos”, prossegue o pesquisador.

Retornando à sede do Instituto Florestal, na capital paulista, Arzolla mostrou o material botânico ao taxonomista e especialista da família Lauraceae,pesquisador João Batista Baitello, que ficou surpreso e afirmou que poderia se tratar de uma nova espécie. Mas, para ter certeza, era necessário coletar o material botânico completo, ou seja, os ramos com flores e frutos.

Não tendo encontrado a espécie em outras áreas da Mantiqueira, Arzolla, Baitello e o pesquisador Francisco Vilela decidiram retornar, em 2012, ao ponto em que havia sido realizada a primeira coleta. Refazer o caminho de 2005 não seria fácil.

A trilha era difícil, mas eles tinham certeza que encontrariam a espécie ali. “Por sorte o Donizete ainda estava trabalhando lá. E conseguimos, seis anos depois, refazer o caminho, subindo apoiando em troncos de juçara e samambaias”, conta Arzolla. Os pesquisadores chegaram ao mesmo local e coletaram ramos com flores. Tiveram ainda que voltar outras vezes, para coletar material suficiente para a descrição da espécie.

Fotos Instituto Florestal

Fotos Instituto Florestal

Em paralelo aos trabalhos de coleta da espécie e caracterização do ambiente onde ela ocorre,Baitello analisou as primeiras coletas e verificou que as flores eram de um único sexo. “Era preciso coletar em outras árvores para termos flores do sexo oposto. Ocoteamantiqueirae, assim como parte das Lauraceae, produz flores masculinas e flores femininas em árvores separadas, as unissexuadas. De posse das diferentes coletas foi possível verificar que o conjunto dos caracteres das flores, frutos e folhas tornava esses exemplares únicos, portanto, diferentes das espécies já conhecidas do gênero e da família. O passo seguinte foi preparar uma descrição detalhada da espécie e em quais detalhes ela se diferenciava das espécies semelhantes, revisar a literatura sobre o gênero e a família, dar-lhe um nome científico e fazer as ilustrações necessárias, organizando as informações em um artigo científico”, conta Baitello.

Os autores destacam a importância da qualidade do olhar do taxonomista neste processo para perceber se o material pode ser algo novo. Mas do momento que se aponta a possibilidade de uma nova espécie, até a comprovação, existe um intenso trabalho. “Esse processo é um misto de acaso, da percepção do taxonomista e da persistência”, contam os pesquisadores.

Baitello não encontrou material da espécie em herbários. A espécie também não foi citada nos levantamentos florísticos realizados até o momento. Isso mostra que a Ocoteamantiqueirae tem uma distribuição conhecida muito restrita. “Embora não tenhamos conseguido localizar em outras áreas, vamos fazer um projeto para descobrir outros locais de ocorrência e a distribuição da espécie”, revela Arzolla.

As florestas alto-montanas ainda são um dos ambientes menos conhecidos no Estado de São Paulo. O potencial de descoberta de novas espécies é muito alto. Mas os locais são de difícil acesso, e por isso muitas espécies continuam desconhecidas até hoje.

 

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