Microtorrefação revoluciona o mercado de cafés especiais

Trabalho artesanal resulta em bebidas com características únicas e valoriza o trabalho de pequenos produtores e empresários ávidos por um mercado diferenciado

 

Crédito Shutterstock

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A microtorrefação é uma torrefação com todos os equipamentos de uma indústria de café normal, porém, em tamanho reduzido, adequados para a produção de pequenas séries de grãos com controle total da torra, visando cafés de excelência em qualidade.

Os equipamentos básicos são os torradores de café, que transformam o café cru em torrado. “Normalmente esses equipamentos têm, em suas gerações mais recentes, um efetivo e máximo controle de torra, não deixando que passe do ponto, o que é fundamental para cafés de alta qualidade. Se isso acontecesse, o café ficaria mais escuro e amargo, perdendo características também em seu aroma”, pontua Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC).

Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da ABIC - Crédito Cláudio Belli

Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da ABIC – Crédito Cláudio Belli

O mestre de torra, como é chamado quem opera os torradores de café, de posse desse equipamento, passa a produzir com as melhores características desejadas para a bebida.

As microtorrefações contam também com sistemas de transporte de grãos torrados, os quais são acoplados aos moinhos, responsáveis pela moagem após a torra. Ainda nesse sistema há a utilização de equipamentos manuais ou automáticos, neste último caso em se tratando de produções maiores, para fazer a embalagem do café.

Todos os tipos de cafés podem ser produzidos para a microtorrefação, desde arábicas a conilons, convencionais a orgânicos - Crédito Shutterstock

Todos os tipos de cafés podem ser produzidos para a microtorrefação, desde arábicas a conilons, convencionais a orgânicos – Crédito Shutterstock

Mercado

As produções das microtorrefadores, por serem em sua maioria artesanais, destinam-se a um mercado consumidor mais próximo delas e, portanto, o volume desse segmento é pequeno, mas tudo com muita qualidade e com todo o processo extremamente controlado, o que explica seu alto valor agregado, segundo explica Nathan Herszkowicz.

“Em minha opinião, a técnica só tem prós, e nenhum ponto contra. É uma alternativa interessante principalmente para os pequenos produtores de café, que podem fazer os chamados microlotes, que chegam a até três sacas, mas com grãos selecionados, ou seja, o ouro do negócio. Portanto, as microtorrefadoras são supridas por esses cafeicultores, normalmente com preços muito acima dos grãos comuns, tendo se transformado em um nicho interessante para se trabalhar, em que o café deixa de ser uma commodity para ser especial, ainda que em pequenos volumes, mas sendo comparados aos melhores cafés do mundo”, diz o especialista.

Para o produtor, isso significa mais rendimento na hora de comercializar seu melhor café, sendo que o valor pago acaba compensando o resto da safra, afinal, não é possível produzir 100% com qualidade impecável. “Geralmente apenas 15% segue para os microlotes. Mas, no caso desses produtores, o mercado acaba valorizando também o restante da colheita, que não tem as mesmas características, mas ainda assim alcança preços melhores”, calcula Nathan Herszkowicz.

A torra do grão é uma fase tão importante que os especialistas tratam essa fase como ciência - Crédito Shutterstock

A torra do grão é uma fase tão importante que os especialistas tratam essa fase como ciência – Crédito Shutterstock

Superioridade em café

Todos os tipos de cafés podem ser produzidos para a microtorrefação, desde arábicas a conilons, convencionais a orgânicos. A priori, as microtorrefadoras são operadas por profissionais com conhecimento técnico mais apurado sobre o grão de café, porque deve-se avaliar a qualidade e a ausência de defeito deste, além de saber avaliar a plataforma de blends, exigindo uma especialidade que gira em torno do assunto.

Custo

Como se tratam de equipamentos de menor porte, sendo parte deles acessórios de operação manual, os custos acabam sendo reduzidos para o produtor, em relação aos grandes equipamentos. Portanto, segundo Nathan Herszkowicz, há um investimento entre R$ 70 mil e R$ 150 mil para iniciar o negócio, o que pode aumentar conforme o negócio for prosperando.

A maioria desses equipamentos tem financiamento facilitado pelo Finame, BNDES.

 Crédito Tobias Ferraz

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Nicho de mercado

Nathan Herszkowicz entende que a microtorrefação só se viabiliza se o proprietário, seja ele produtor ou industrial de café, com a produção de alta qualidade, que podem alcançar o mercado com valor agregado superior. Do contrário, não há sucesso.

Isso porque 90% do consumo de café no Brasil é do tipo tradicional, de qualidade aceitável e preço acessível, custando em torno de R$ 20,00/kg na prateleira dos supermercados. Já em se tratando dos cafés gourmets, que são especiais, o valor pode chegar a R$ 100,00/kg, ou seja, cinco vezes mais. Por isso esse segmento deve ser trabalhado em pouco volume e alto valor agregado, pois do contrário a rentabilidade não sustentará o negócio.

“Os microtorrefadores devem, necessariamente, estar voltados para a produção e comercialização de cafés gourmet de alta qualidade e alto valor agregado. Essa é uma exigência do mercado, que está mais conhecedor do café e antenado às inovações, e por isso se dispõe a pagar mais por um produto que seja realmente diferenciado”, pontua o especialista.

Essa é parte da matéria de capa da Revista Campo & Negócios Grãos, edição de maio de 2018. Adquira o seu exemplar para leitura completa.

 

 

 

 

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