ILPF – A sustentabilidade levada a sério

 

A ILPF é uma tecnologia brasileira que se caracteriza como uma estratégia de produção que integra a agricultura, a criação de animais e o plantio de árvores em uma mesma área, de modo a haver interação positiva entre os componentes e gerar benefícios sociais, ambientais e econômicos

 

Sérgio José Alves

Doutor e pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR)

sja@iapar.br

Cassio AntonioTormena

Doutor e professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Crédito Gabriel Faria Rezende

Crédito Gabriel Faria Rezende

A denominação “integração lavoura-pecuária-floresta” (ILPF) tem sido utilizada para descrever sistemas de produção em que participam cultivos agrícolas, criações de animais e florestas. Existem diversos sistemas com inúmeras variações.

No Brasil, a denominação integração lavoura-pecuária-floresta tem sido utilizada principalmente para descrever diversos sistemas de produção em que participam pastagens, cultivos agrícolas e florestas com uma interação sinérgica entre eles. De forma simplista, é uma alternância de uma pastagem temporária com um cultivo agrícola, sendo que este pode ou não incluir árvores.

A “ILP” é resultante de um conjunto de tecnologias que foram desenvolvidas pelas diferentes instituições brasileiras de pesquisa, com importantes contribuições de empresas privadas e produtores rurais. Pode-se considerar que a “moderna” integração lavoura-pecuáriase inicia com o plantio direto na palha e avança no sentido de propor rotações de cultivos e a manutenção de solos cobertos o ano todo.

Um sistema de ILP intensivo remete ao conceito de “agricultura sem parar”. O solo é constantemente cultivado em plantio direto e em sucessão de diferentes culturas.

O sistema de ILP intensivo remete ao conceito de “agricultura sem parar” - Crédito Lourival Vilela

O sistema de ILP intensivo remete ao conceito de “agricultura sem parar” – Crédito Lourival Vilela

Revolução agrícola

A ILP tem potencial de revolucionar a produção agropecuária em regiões tropicais (Norman Borlaug, comunicação pessoal, 1993), maior até do que a introdução do trator e a evolução da genética de plantas e produtos químicos agrícolas.

No Brasil, observa-se principalmente a rotação de cultivos agrícolas com forrageiras em pastejo. Entenda-se esta alternativa de rotação de cultivos em um sentido amplo, em que podem participar diversos cultivos agrícolas (soja, milho, feijão, algodão, mandioca, etc.), diferentes espécies forrageiras, anuais ou perenes, e por períodos de tempo variável.

A maioria dos sistemas de rotação de pastagens com cultivos agrícolas em utilização no Brasil podem ser agrupados em:

ÌReforma de pastagens com cultivos agrícolas.

ÌO plantio de forrageiras utilizadas ou não em pastejo visando à melhoria de solos das áreas agrícolas.

Ì Integração lavoura-pecuária intensiva ou de segunda geração – a qual visa explorar o sinergismo da produção animal e agrícola, ambas com alta tecnologia, em uma mesma propriedade.

Evolução da prática

A reforma de pastagens com o plantio de cultivos agrícolas é uma prática antiga e utilizada tradicionalmente pelos produtores. A grande mudança é que a moderna ILP é feita em plantio direto.

O plantio direto é um dos maiores avanços tecnológicos nas regiões tropicais e subtropicais do mundo. A reforma de pastagens em plantio direto tem possibilitado o plantio de cultivos agrícolas em grandes áreas de solos pobres e anteriormente degradadas.

O plantio de forrageiras para a recuperação de solos também é uma prática antiga. No passado, antes do advento das adubações químicas, era comum o pousio ou o plantio de pastagens para a recuperação dos solos.

A grande mudança é a rotação em prazos curtos e o uso de tecnologia. Nesta sucessão rápida, houve uma quebra de paradigmas. Os produtores acreditavam que a entrada dos animais compactaria os solos e que sobraria pouca palha para a manutenção do plantio direto.

Os experimentos demonstraram que com o manejo correto das pastagens haveria um aumento na produção total de forragem e que não haveria compactação do solo. Ou seja, houve um avanço tecnológico mostrando a viabilidade do pastejo de inverno, com sustentabilidade. Os dados obtidos mostraram, inclusive, aumento de produtividade agrícola.

A ILP intensiva é um modelo que pode vir a prevalecer em muitas regiões do Brasil no futuro, com uma área menor de pastagem intensiva no período de primavera-verão e cultivos agrícolas na maior parte da área neste período e o plantio de pastagens temporárias semeadas em sucessão aos cultivos agrícolas no período de outono-inverno.

Os resultados mostram ser possível ter alta produtividade agrícola e animal, mesmo em áreas marginais, com menor risco e maior sustentabilidade.

Pecuária pós milho - Crédito Edemar Moro

Pecuária pós milho – Crédito Edemar Moro

Viabilidade

O sistema é viável em diversas situações, de solos argilosos a arenosos, com ou sem a incidência de geadas e com períodos variados de seca. A pesquisa agrícola tem definido parâmetros e buscado alternativas para diferentes tipos de solos e clima.

Há algumas situações restritivas, por exemplo, em solos excessivamente arenosos, com drenagem deficiente, áreas montanhosas e/ou com restrição à mecanização. Em algumas áreas, acaba sendo possível ter apenas árvores e pastagens, por exemplo. Há, ainda, questões de infraestrutura regional a serem analisadas.

Mas, de modo geral, seria possível dobrar a área de produção de grãos no Brasil sem a necessidade de desmatamentos.A ILP é uma oportunidade de consolidar o Brasil como gerador de tecnologia agrícola para regiões tropicais e subtropicais e como área de expansão para a produção de alimentos.

Milho colhido + capim - Crédito Edemar Moro

Milho colhido + capim – Crédito Edemar Moro

Por onde começar

O conceito geral da “integração lavoura-pecuária” é relativamente simples, mas há inúmeras possibilidades e interações. Um bom projeto de implantação evita erros, retrabalhos e permite o treinamento ou a contratação de pessoas.

Há situações distintas. Numa propriedade de pecuária, em que a lavoura será introduzida, há a necessidade do aprendizado da tecnologia agrícola por parte dos colaboradores, a adequação de equipamentos, compra de insumos, venda da produção, etc. Não é raro o pecuarista encontrar dificuldades em acertar o “momento” de aplicação de defensivos agrícolas ou subestimar o potencial de dano de uma doença ou praga.

Em propriedades agrícolas, há normalmente alguma resistência dos colaboradores quanto à entrada de animais nas áreas agrícolas e algum receio quanto ao trabalho no curral, vacinas, etc.

Essa é parte da matéria de capa da Revista Campo & Negócios Grãos, edição de junho de 2018. Adquira o seu exemplar para leitura completa.

 

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