Contra-ataque biológico do psilídeo-de-concha

Diego Tolentino de Lima

Engenheiro agrônomo e doutorando em Produção Vegetal – ICIAG-UFU

diegotolentino10@hotmail.com

José Geraldo Mageste

Engenheiro florestal, Ph.D. e professor – ICIAG-UFU

jgmageste@ufu.br

Ernane Miranda Lemes

Engenheiro agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal – ICIAG-UFU

ernanelemes@yahoo.com.br

Crédito Shutterstock

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O psilídeo-de-concha Glycaspisbrimblecombei (Hemiptera: Psyllidae) é uma praga (inseto) originária da Austrália, de hábito sugador, caracterizado por alimentar-se somente de folhas de eucalipto.

As ninfas são facilmente reconhecidas nos povoamentos em razão de sua secreção açucarada, em forma de concha, localizada nas folhas das árvores. Muitas espécies de Eucalyptus são hospedeiras do psilídeo-de-concha, mas no Brasil está associada principalmente ao E. Camaldulensis. Com poucas exceções e em condições de alta umidade, é comum também haver ataque em E. tereticornis.

Danos

Foi a partir do ano 2003 que houve ataque em extensas áreas de povoamentos de E. Camaldulensis no Brasil, principalmente nas regiões de Cerrado, em condições acentuadas de déficit hídrico. A partir desta ocasião houve danos significativos nos povoamentos, como desfolha, secamento dos ponteiros, redução da atividade fotossintética e do crescimento das árvores.

Também começou a ocorrência de pragas secundárias (que até então não tinha causado danos) e o desenvolvimento de fungos saprófitas (de menor importância), como a fumagina, associados ao ataque dos psilídeo-de-concha.

Estudos conduzidos na Califórnia, onde não se planta o E. Camaldulensis e pouco de E. Tereticornis, mostraram que o psilídeo-de-concha pode causar até 15% de mortalidade das plantas no primeiro ano (plantios com um ano de idade) e até 40% no ano seguinte, quando ocorre em anos consecutivos.

Sintomas de psilideo de concha - Crédito Carlos Wilcken

Sintomas de psilideo de concha – Crédito Carlos Wilcken

Condições para a praga

Nos EUA e México, a população do psilídeo-de-concha aumenta com a temperatura no verão, diminuindo constantemente com a chegada do inverno rigoroso. Devido às características climáticas do Brasil serem diferentes do Hemisfério Norte, nota-se que a redução das temperaturas médias mínimas e máximas induzem a um aumento na população.

No nosso inverno, com a chegada dos meses mais secos e das temperaturas mais amenas (10 a 27°C), a população do psilídeo-de-concha aumenta, causando maiores danos. Isto para qualquer região do País. Regiões de secas acentuadas ou veranicos prolongados facilitam o ataque deste inseto nos povoamentos de E. camaldulensis.

No entanto, deve ser registrado que esta espécie (e seus vários clones) cada vez menos vem sendo usada nos plantios comerciais. Aquele fervor da década de 80, com a semelhança das condições climáticas da ocorrência natural na Austrália,caiu por terra quando foram aparecendo outras variações genéticas (com outras espécies) com madeira de propriedades físicas mais adequadas para os usos brasileiros (comprimento de fibra, resistências à flexão, maiordensidade e produtividade, etc.).

Mas, o perigo ainda está presente para o E. tereticornis, que está sendo plantado Brasil afora, principalmente para tratamento de madeira (moirões de cerca).

Crédito Shutterstock

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Controle biológico do psilídeo-de-concha

O controle biológico vem sendo usado principalmente nos Estados Unidos. Naquele país foram importadas oito espécies de parasitoides da Austrália para o Estado da Califórnia. Contudo, apenas a espécie PsyllaephagusbliteusRiek (Hymenoptera: Encyrtidae) estabeleceu-se e tem controlado esta praga a campo com resultados satisfatórios.

Este controle biológico, classificado como do tipo clássico, vem apresentando percentagens de parasitismo que variam de 40 a 100%, índice altamente variável, deixando inseguro o seu uso comercial. Isto deixou os brasileiros apreensivos quanto ao seu emprego em grandes áreas.

Na maioria dos casos, apenas são feitos registros de ocorrências e fica-se na expectativa de mudanças das condições climáticas que dificultem a proliferação desta praga. Além do mais, mudanças de técnicas silviculturais, como plantio em elos (“haleycroping”), servem de proteção das espécies muito suscetíveis em ambientes confinados.

O controle biológico pode ser usado nos povoamentos brasileiros, quando se nota aumento da população do psilídeo-de-concha. No entanto, neste caso é necessário ter todo um sistema de acompanhamento (armadilhas), principalmente quando as condições climáticas vão se tornando favoráveis a um ataque epidêmico (ataque danoso).

No Brasil, o parasitoide P. bliteus foi introduzido acidentalmente junto com a praga. Este inimigo natural tem mostrado significativa relação de dependência com a população do psilídeo-de-concha, revelando-se uma opção viável para o controle biológico do inseto.

Entretanto, a população do parasitoide tem se mantido a níveis baixos no campo, ao contrário da população do psilídeo, que tem causado surtos no período mais seco do ano (final de abril a meados de agosto, para a maioria dos povoamentos situados nas condições de Cerrado).

O fato de que P.bliteus tem partenogênese arrenótoca, isto é, os ovos não fertilizados desenvolvem indivíduos do sexo masculino apenas, pode explicar a falta de desenvolvimento da população de maneira satisfatória deste inimigo natural após a primeira liberação (soltura) nos povoamentos de E. camaldulensis.

 

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